A Primeira Televisão

Nos anos 70, a energia elétrica ainda não tinha chegado até a nossa casa. À noite, a luz vinha do lampião, e o resto era rotina adaptada ao que dava. Mesmo assim, a vontade de ter uma televisão existia — e, de um jeito ou de outro, ela acabou chegando.

Veio de uma parente. Já usada, simples, mas com um detalhe que fazia toda a diferença: funcionava com bateria de carro.

Aquilo, pra nós, era quase uma inovação.

A televisão não ficava ligada o tempo todo. Muito pelo contrário. O uso era quase cerimonial. Era para a novela. Só naquele horário, como se fosse um compromisso importante da casa. Todo mundo já sabia: era ali que a bateria seria “gasta”.

E tinha um detalhe curioso que só quem viveu entende.

Conforme a carga da bateria ia diminuindo, a imagem também mudava. A tela começava a encolher aos poucos, como se estivesse se despedindo. Ia ficando menor, mais apertada, até chegar num ponto em que a gente já sabia: estava no fim por hoje.